Ando pelas ilhas com uma câmara na mão desde a primeira plantação, em 2022. A maior parte do tempo não estou a fotografar árvores — estou a fotografar o que apareceu sozinho: um abelhão numa flor, uma vespa-do-papel a construir, uma joaninha numa folha, uma aranha de teia armada entre dois ramos, o hotel de insectos ocupado. Nada disto foi plantado. Chegou porque havia condições para chegar.
Essas fotografias deram origem a uma loja: t-shirts, sweats e sacos de algodão orgânico com ilustrações desenhadas a partir das imagens reais das ilhas. E têm uma regra simples — por cada peça vendida, plantamos duas árvores ou arbustos autóctones na próxima ilha.
Não é uma percentagem de lucro que ninguém consegue verificar. É uma unidade que se conta no terreno: duas árvores ou arbustos autóctones, plantados na plantação seguinte, com o resto das espécies, segundo o método Miyawaki.
A próxima é em Novembro de 2026, na Escola Sant'Lago, em Setúbal. Quem compra hoje está a comprar árvores que vão para o chão nessa plantação.
Há uma diferença entre desenhar um insecto genérico e desenhar o insecto que apareceu na tua ilha. Cada estampa tem origem numa fotografia com data e local — o abelhão sobre a flor, a abelha solitária, a abelha em voo, a cauda-de-andorinha, a joaninha, o hotel de insectos, e a vista aérea da minifloresta do estaleiro da Lisnave, em Setúbal.
A minifloresta da Lisnave, em particular, é a primeira Ilha de Biodiversidade em ambiente industrial em Portugal, e é onde medimos 11,2 °C de diferença entre o asfalto e o interior da vegetação. A estampa é a vista de cima desse pedaço de verde no meio do estaleiro.
Há um projecto dentro do projecto. A palavra SOLO não é um tipo de letra: são quatro ilhas, uma por letra, plantadas no terreno. Levou dois anos a plantar as quatro. Desde então volto lá todos os anos e fotografo-as de cima.
E o nome tem duas leituras. Solo é a terra, o ponto de partida de tudo. Mas solo é também estar só — porque é assim que cada uma destas florestas começa: isolada, cercada por betão, alcatrão ou terreno industrial.
As quatro letras são quatro plantações distintas. O S é a segunda ilha plantada no estaleiro da Lisnave, em Setúbal. O primeiro O é a ilha número um, a primeira de todas, também na Lisnave, em Novembro de 2022. O L é a Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa, com a Noesis. E o segundo O é a ilha na área de serviço da A5, com a Capgemini e a Brisa.
De cada série de fotografias sai uma edição nova de t-shirt, e é sempre diferente da anterior — as árvores crescem, as copas fecham-se, o verde muda de tom. A estampa é o retrato das letras naquele ano; passado o ano, aquela imagem não se repete. É uma forma de medir crescimento que também se pode vestir.
Nota sobre as imagens: o logótipo do projecto é uma ilustração original e a palavra SOLO são fotografias aéreas reais das quatro ilhas — nenhuma das duas usa arte digital. As restantes estampas foram desenhadas a partir das minhas fotografias, com apoio de ferramentas digitais de imagem, incluindo IA, mas a origem é sempre uma fotografia real tirada numa das ilhas.
As peças são produzidas em algodão orgânico e impressas só depois de encomendadas — não existe stock, não existe excedente para destruir. No fim de vida, a peça pode voltar para trás e ser transformada em tecido novo em vez de acabar em aterro.
Faz sentido: seria estranho financiar plantações com roupa produzida em massa e enviada para aterro três anos depois.
A loja está no menu do site, em Loja. A compra e o envio são feitos na plataforma da loja, mas as peças, as fotografias e as ilhas são todas daqui.
Ler também